Países amazônicos devem evitar conflitos por água, diz OTCA

Água na Amazônia: populações já sentem os efeitos da mudança climática, que se expressa nas fortes inundações e secas


Eduardo Davis, da EFE

Brasília - Os países amazônicos, que "guardam" 20% da água doce do mundo, devem continuar "atuando juntos" para impedir que essas reservas sejam motivo de futuros conflitos, afirma a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). 

"Na medida em que os países amazônicos continuem atuando juntos, isso poderá ser evitado", disse em entrevista para a Agência Efe o diplomata boliviano Mauricio Dorfler, diretor-executivo da OTCA, a organização regional integrada por Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. 

A ONU já alertou que a água pode ser objeto de grandes conflitos no século XXI e um relatório divulgado pela Unesco nesta semana, como parte das comemorações pelo Dia Internacional de Água neste domingo, reafirmou essa tese, ao advertir que o planeta pode ter um déficit hídrico de 40% em 2030 se não houver mudanças no atual modelo de consumo e preservação. 

Para Dorfler, há um consenso entre os países amazônicos de que a gestão da água é parte de uma "agenda comum", que inclui outros fenômenos que podem afetar essas reservas, como o desmatamento e o mercúrio despejado nos rios pela mineração ilegal. 

Dorfler destacou que esse consenso dentro da OTCA foi alcançado "inclusive com as diferenças políticas" que existem entre os países da região amazônica, que souberam deixar de lado as divergências para trabalhar em favor da preservação. 

Nesse sentido, o diplomata boliviano citou como exemplo um projeto regional sobre o uso sustentável dos recursos hídricos além das fronteiras ao longo de toda a bacia amazônica, que nasce nos Andes e desagua no Atlântico, na região norte do Brasil. 

Esse projeto se complementa com um plano para fortalecer os marcos constitucionais nacionais em relação à gestão da água e ao desenvolvimento de iniciativas conjuntas para a criação de um ambiente de cooperação, nas áreas social e econômica, em toda a Amazônia. 

"Na região amazônica, vivem cerca de 40 milhões de pessoas que não podem permanecer à margem do desenvolvimento", disse Dorfler, que acrescentou que essas populações já sentem os efeitos da mudança climática, que se expressa nas fortes inundações e secas registradas nos últimos anos em diversas regiões amazônicas. 

Nesse contexto, o diplomata relatou que a OTCA começou a colaborar com comunidades que residem na fronteira entre Brasil e Peru, onde se executa um projeto para a implantação de hortas em plataformas elevadas a cerca de dois metros do solo. 

Essas plataformas têm aproximadamente 100 metros quadrados e permitem manter o cultivo de diversos produtos agrícolas durante as inundações, com os quais as populações ribeirinhas podem continuar gerando receitas mesmo quando suas terras tenham se transformado em pântanos. 

Esse projeto demandou até agora um investimento aproximado de US$ 200 mil e favoreceu cerca de 22 mil pessoas das regiões de Nauta, no Peru, e de Tapará Grande, Urucurituba e Igarapé da Costa, no Brasil. 

No entanto, se trata somente de um projeto piloto que será ampliado no futuro para outras regiões amazônicas que sofrem a cada ano com as cheias dos rios. 

A OTCA também tem em seus planos a instalação de um Observatório Ambiental e quer fortalecer seus programas para a formação de profissionais nas ciências da natureza, que são escassos nos oito países da organização. 

Segundo dados da OTCA, a Amazônia abriga pelo menos 32 mil espécies diferentes de plantas vasculares e o país da região que mais possui doutores em botânica é o Brasil, onde não passam de uma dezena. 

Por outro lado, 70% dos estudos sobre a região são realizados por especialistas de Estados Unidos e Europa, e dos 30% restantes, 80% são feitos no Brasil, que possui quase dois terços do território amazônico.

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